Terça-feira, 11 de Dezembro de 2007
A meio caminho

Encontraram-se a meio caminho. O Sol e a Lua. Quando a noite ainda não se foi embora e o dia ainda não raiou; quando as estrelas iluminam o caminho.

 

O Sol vinha vestido de cores garridas: trazia o azul estampado no rosto, o peito vermelho de paixão. A Lua vestia de branco e negro, escondendo a tez da sua pele.

 

Encontraram-se em tempos diferentes. O Sol viu-a ainda escuro, no meio do frio das noites de Março. A Lua encontrou-o ao despontar dos dias quentes de Abril.

 

Os cigarros ardiam com o fogo que trazia no peito. Deixou-se envolver nesse fogo sem que o Sol o percebesse. O fogo queimava-lhe as entranhas sem a queimar, sem lhe mudar as cores que trazia. O branco e negro continuavam a sê-lo.

 

O Sol exultava de cada vez que se aproximava da hora da Lua. A Lua, sabendo-o, esvaziava-o do calor que libertava e que trazia dentro de si. A Lua branca e negra era cruel. A sua tez de pele era vermelha de paixão; a cor que trazia no rosto era o azul de felicidade, na esperança que o Sol nunca se esvaziasse, de que o fogo que a envolvia sem que ele soubesse, que a alimentava, nunca se apagasse. Afinal, o Sol brilha todos os dias e as entranhas continuarão sempre a arder.

 

Cresceram rosas das mais variadas cores. Alimentavam-se delas. Comiam-lhes as pétalas quando a noite ainda não tinha ido embora e o dia ainda não tinha raiado. Plantavam em si flores. Repousavam, depois, sobre uma nuvem que passava, quentes, muito quentes, e sem que a fome de pétalas estivesse saciada.

 

A Sol mostrava à Lua branca e negra e às estrelas que iluminam o caminho as flores que plantava em si. A Lua guardava-as com a própria vida, como a um tesouro muito precioso. Tinha medo de as misturar com as do Sol de azul estampado no rosto, medo de lhas querer dar, talvez por sempre ter vivido na escuridão.

 

A Lua escrevia o nome dele com as estrelas quando o Sol ainda não tinha chegado. Brincava, depois, com os braços dos abraços quentes do vermelho que o Sol trazia sempre.

 

As estrelas que a Lua trazia sempre consigo deixavam de brilhar quando encontravam o Sol noutra hora qualquer. Limitavam-se a sorrir na palidez fingida que trazia no rosto. E as estrelas já sem brilho escreviam o seu nome no firmamento, embora ele não o pudesse ver.

 

A alma da Lua continua a sofrer e as chamas continuam a crepitar, ardendo-lhe as entranhas.

 

O Sol continua a brilhar em todas as horas, todos os dias. Pelo menos, para a Lua branca e negra...


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publicado por petitrien às 19:04
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