Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2007
A chegada da Primavera

A Primavera tinha começado havia pouco tempo. As suas noites espalhavam já uma imensa magia. Pairavam no ar os mais deliciosos aromas: flores, frutos, paixão..., que incendiavam as almas, até dos que se diziam mais preparados para a sua chegada. E os corações.

 

Tudo era belo e colorido, cheio de si.

 

Foi numa dessas noites que se amaram verdadeiramente.

 

Tinha chovido; daquela chuva adivinhadora de grandes dias e grandes noites.

 

O céu, estrelado, chamou-os para que se encontrassem. Tudo estava turbulentamente calmo. Essa calma só era interrompida pela música alegre e pelos risos da gente que, por entre cerveja e vinho, atendia ao chamamento.

 

Fazia calor dos corpos isolados. Os olhos chispavam energia e vontade de amar, de viver, de arriscar as coisas mais impossíveis de imaginar.

 

Encontraram-se no meio da cerveja e do vinho, das guitarradas e dos risos das gentes. Perceberam que esse encontro seria fatal, que nunca mais seriam os mesmos de antes da chuva primaveril.

 

Ficaram juntos e juntaram-se à algazarra.Quase não se falaram durante horas. Ela tinha o seu alfinete na lapela e o seu olhar; ele tinha o seu sorriso, que levou quando partiu e que trouxe no peito até à volta. Voltou feliz por voltar, esperando que o sorriso ainda se encontrasse por entre a alegria que tinha deixado. O sorriso tinha desaparecido, deixando no seu lugar um olhar triste e vago, preso no vazio, que depressa ganhou vida quando se apercebeu que o dono do alfinete tinha vindo buscar o sorriso da lapela.

 

Aproximaram-se instintivamente. Não ouviam o barulho à sua volta. Só ouviam o que o outro balbuciava e o trotar dos corações nos seus peitos, ao mesmo tempo que sentiam a intensidade da estação.

 

Caminharam para os outros, que se íam embora.

 

Ficaram sós e quase não falaram.

 

Ele cantou-lhe docemente como já tinha cantado outras vezes. Pareceu-lhe diferente, mais cheio de sentimento e de sentido.

 

Sentaram-se e conversaram coisas sem importância. Não podiam, não depois daquela canção.

 

Tocaram-se ao de leve antes de ele ir, fazendo-a prometer que não saíria dali, e que desta vez não perderia o sorriso.

 

Voltou com uma vontade imensa de lhe tocar, de a beijar. Toucou-a e beijou-a sem cessar, apaixonado.

 

Ela queria beijá-lo sempre mais, sabendo que não correria o risco de se cansar.

 

Caminharam abraçados pelas pedras escorregadias da calçada, que brilhava com a luz da lua e das estrelas. Chegaram a um local mágico de onde podiam abraçar o mundo.

 

Ele observava-a, enquanto ela, cheia de paixão por todas as coisas, consequência do seu amor por ele, observava tudo à sua volta, achando tudo delirantemente belo.

 

Carinhoso, abraçou-a e disse-lhe o que ela nunca mais ouvirá de ninguém.

 

Resignaram-se. Queriam-se mais do que tudo, do que o mundo.

 

Voltaram a tocar-se, agora ainda com mais intensidade. Sentiam-se explodir a cada toque, a cada palavra, como se formassem um só.

 

O sol brilhava. Entregou-lhe o alfinete, enquanto ele, sentado na cama, observava todos os seus movimentos. O sol tinha quebrado a magia da chuva nocturna, trazendo consigo outro tempo, outros sons e aromas. Era tempo de partir. Ela. ecusando-se a aceitar tão facilmente, resolveu acompanhá-la. Porque sabia que não voltaria. Abraçou-a e assim partiram do seu pequeno paraíso, caminhando, agora pela calçada seca pelo sol.

 

Despediram-se carinhosamente e com mágoa.

 

Dificilmente se voltariam a amar assim.


sinto-me: nostálgica
música: "Take my breath away" - Berlin

publicado por petitrien às 11:01
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