Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2007
O quarto azul do mar da imensidão dos olhos dela

Acordou sózinha no quarto azul. Pairavam dele memórias no ar, recordações daquilo que tinha perdido por querer sem o saber.

 

Era para lá que tinham ido pouco depois de se conhecerem. Para o quarto azul da imensidão dos olhos dela. Era lá que nadavam juntos e flutuavam no piano que tangiam baixinho, como que com medo de se despertarem.

 

Saíam, depois, com gotas de prazer que escorriam pelos seus corpos abandonados; que lhes banhavam as faces elegres de paixão.

 

Contemplavam as flores que cresciam dos seus ventres, adoçadas pelo sal que traziam nos corpos.

 

As flores eram belas, das mais variadas cores.

 

Estendiam-se ao calor que libertavam, dizendo com os olhos aquilo que as bocas recusavam proferir:

 

- Amo-te!

 

E dormiam com o prazer...

 

A fonte que era só deles jorrava água sem cessar. Matava-lhes sempre a sede na hora do adeus.

 

De cada vez que ali voltavam se sentiam mais impotentes. Impotentes de que as flores que lhes cresciam no ventre os começassem a ferir, não com dor mas com sangue que tinham medo de derramar.

 

E queriam voltar. Sempre.

 

A fonte continuaria a saciá-los até que assim o desejassem. Eles sabiam. Voltariam sempre para beber dos lábios o líquido que os fazia viver

 

As estrelas iluminavam o caminho a percorrer. Também a lua viera para os ver serem felizes.

 

Mas as estrelas enganaram-na. Afinal, havia um quarto de breu logo ao lado do quarto azul.

 

Ficou.

 

Chorando o quarto azul que perdera por querer sem o saber, ficou.

 

Dormiu e sonhou com o que tinha deixado. Voltaria, se pudesse.

 

As estrelas e a lua, compadecidas com a escuridão em que dormia, foram arrancá-la à cama de lençóis negros. Iluminaram-lhe o caminho.

 

O quarto azul estava cheio dele. Cheio dele, cheio da imensidão do azul do mar dos olhos dela.

 

Sobre o sofá repousou.

 

As flores ainda não desabrocharam do seu ventre. Esperam pacientemente o sal que as adoça, que lhes será trazido nas gotas que escorrem dos seus corpos e que lhes banham os rostos.

 

A fonte continuava no seu murmurar.

 

Os pássaros cantavam e ela beijou-os devagar, com a doçura que lhe queria dar a ele.

 

Comeu melôa sofregamente e bebeu da fonte mais uma vez o líquido que a faz viver.

 

Ao longe, no milharal, recordava a boca das palavras e dos beijos, os ombros em que repousava, os braços dos abraços de paixão. Lembrou as pernas que dançam para lá das suas.

 

Talvez as estrelas e a lua o encaminhassem para o quarto azul. Poderia, então, matar a sede que o faz sucumbir. Sede do azul do mar da imensidão dos olhos dela.

 

Voltariam a nadar no mar, a flutuar no piano que já não temeriam tanger, e as flores desabrochariam adoçadas pelo sal que traziam nos corpos abandonados e nos rostos alegres de paixão.

 

Ficariam para sempre.

 

O sol entrava a rodos. A felicidade seria plena.

 

Os amantes encontraram-se, por fim.

 

Decidiram que flutuar no piano, embora mais difícil, e correndo o risco de o sangue das feridas ser derramado, era o mais seguro.

 

Começariam a aventura de viver para sempre bebendo da fonte que murmura no quarto azul, vendo os seus ventres florir do sal que adoça as flores que há muito plantarm.

 

Vão para sempre dormir com o prazer no quarto azul do mar da imensidão dos olhos dela.

 

E o piano tocará alto, já sem medo de despertar qualquer um deles.

 

E as janelas estarão abertas para que os pássaros entrem. Beijá-los-ão com doçura.

 

Deixarão de ser memórias a povoar o quarto azul.

 

O medo não terá lá lugar.

 

Amar-se-ão. Simplesmente.

 

Tudo voltara a fazer sentido. O mundo continuava a girar lá fora.

 

Eles, alheios. Nada mais importa. Estão juntos.



publicado por petitrien às 15:17
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3 comentários:
De Lua de Sol a 18 de Dezembro de 2007 às 17:11
Bonito, fala de sonho, de realidade, de entrega, de receio, de sentimentos paralisantes e de liberdade... E repleto de frases com um azul delicioso.

Beijinhos


De petitrien a 18 de Dezembro de 2007 às 17:43
Resta saber é se é ou não do "azul do mar da imensidão dos olhos dela"...


De Mamã Gansa a 19 de Fevereiro de 2008 às 13:04
Não gosto de azul.Mas gosto do mar. Gostei deste quarto azul, do sonho, das palavras, das metáforas entre o sonho e o pesadelo. gostei do fim o que importa é que estão juntos.També ach que é o que importa no fim de tudo, é conseguirem permanecer juntos na adversidade.


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