Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2007
O ir e vir da maré

Vinha de longe. Lá do frio do orgulho e do deserto do abandono. Sentia necessidade de aquecer o corpo esgotado no aconchego que só um amor pode trazer. Tinha necessidade de beber o elixir da vida: só assim sobreviveria.

 

Nos olhos e nos cabelos claros bailava a vontade de um ser, a vontade de um viver por outra alma que não a sua, mas que era sua.

 

A vontade de se dar era tanta! O perigo de não se dar era imenso!

 

Desesperava pelo arfar suplicante de outro corpo, pelo magnetismo dos lábios desejados nos seus mais loucos sonhos.

 

Como desejava dar-se!

 

Queria abrir as asas e voar. Voar para onde lhe apetecesse; voar livre do medo que lhe turvava a alma; voar para outros braços, para aqueles braços.

 

Queria ser livre. Poder nadar no mar da paixão sem nada que lhe prendesse os movimentos. Prender-se-ia de livre vontade. Como as algas se prendem às rochas. Quando morresse, partiria. Ou simplesmente quando o desejasse. Ansiava por poder partir e chegar quando quisesse. Esperava que a rocha compreendesse que a alga voltaria; que embora tivesse partido, a sua razão de viver continuava ali; que o seu coração continuaria fiél como no primeiro dia. Voltaria sempre.

 

Ficaria ainda antes de se aperceber. A necessidade do ir e vir da corrente desvanecer-se-ia como por encanto. Ondular-se-ia, sim, mas com o corpo assente no seu coração. Lutaria por fingir que assim não era. Perceberia que era em vão. Só mais tarde o daria a conhecer à rocha do seu viver. Dir-lhe.ia:

 

- Senti a tua falta...

 

Simplesmente. E a rocha perceberia que a sua alga voltara para ficar.

 

Tratá-la-ia com ternura; protegê-la-ia com o próprio corpo, como se de uma tenra rosa se tratasse. O ir e vir das ondas tinha-lhe demonstrado toda a sua fragilidade, a sua grande pequenez, a sua fraqueza igual à da rocha que chora na ausência da menina dos seus olhos.

 

Não era egoísmo que a levara tantas vezes a partir. Era o medo da incerteza, medo do seu sentir estranho a tudo o que já tinha experimentado.

 

A alga descansava agora no seu coração. Dormia aninhada no leito em que a rocha se transformara.

 

A rocha e a alga podiam agora descansar...



publicado por petitrien às 14:53
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3 comentários:
De Lua de Sol a 18 de Dezembro de 2007 às 17:08
A rocha e a alga sentiram, então, aquela "comichão" na barriga... Bonito.

Beijinhos


De petitrien a 18 de Dezembro de 2007 às 17:44
Pois é, amiga. Sentiram, mas acho que foi só na barriga dela...


De Mamã Gansa a 19 de Fevereiro de 2008 às 12:59
uantas algas não se perdem no ir e voltar das marés da vida enquanto as suas rochas se desmoronam em areia....


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