Quinta-feira, 6 de Dezembro de 2007
O nascimento da alma

Estava um dia ensolarado como poucos naquele frio inverno. O sol, morninho, convidava ao passeio, naquela tarde de sábado.

 

Pegou nas chaves do carro, decidida a desfrutar daquela luz invulgar. A praia, ali tão perto, era o destino ideal.

 

Lá seguiu, não sem antes se debater com o trânsito infernal da cidade. Parecia impossível, um sábado tão movimentado! Era Natal, lembrou-se, e o consumismo desenfreado estava a fazer das suas.

 

Ainda não tinha comprado nada para os sobrinhos... nem para a restante família... em boa verdade, nem para os amigos mais chegados... mas isso não importava. Nada. Naquele dia, só mesmo aquela luz mágica a levaria a sair do aconchego do sofá e das ternuras da sua gata, que reclamou quando percebeu que iria ficar sózinha.

 

Chegada ao destino, espreguiçou-se.

 

Hum!!! O sol, morninho naquela tarde de Dezembro, a bater-lhe nas costas...

 

Descalçou as botas (altas, porque até uma ida à praia merecia que estivesse no seu melhor), e caminhou em direcção ao mar.

 

Uma onda veio morrer no areal e molhou-lhe os pés descalços. Um arrepio percorreu-lhe a espinha, mas não se importou. O sol, morninho naquela tarde de Dezembro, havia de os secar.

 

Olhou em volta. A praia estava deserta, como a sua alma, naquela tarde de sol morninho de Dezembro.

 

Sentou-se, bem no meio do areal, que apresentava sulcos, testemunhas da fúria marítima.

 

Aquela tarde, de sol morninho de Dezembro, não era uma tarde qualquer.

 

Fazia precisamente um ano que o tinha deixado partir, carregando malas. E mágoas.

 

A despedida não tinha sido fácil, temperada com muitas lágrimas e promessas de que voltaria.

 

Volvido precisamente um ano, naquela tarde de sol morninho de Dezembro, já não sabia se queria que voltasse. Afinal, o que é que os tinha feito ficar juntos?

 

A ela, interessava-lhe a arte, o ar livre, o sorriso das crianças...

 

Ele, perdia-se no mundo virtual e, aos poucos, perdia-a a ela, apercebia-se agora.

 

Espreguiçou-se, uma vez mais, naquela tarde de sol morninho de Dezembro.

 

Levantou-se, decidida a sacudir a areia que se lhe tinha entranhado no corpo.

 

Calçou-se, e reparou que o sol já se punha. Entrou no carro, decidida a deixar-se levar pela compulsão consumista. Era hora de mudar. Começaria por se dirigir ao centro comercial mais próximo, com o pensamento nos jogos que iria comprar para os sobrinhos. Para si, decidiu dar-se uma prenda, mais profunda. Mal chegasse a casa, entraria no mundo virtual, dele, e dir-lhe-ía que também ela queria celebrar um nascimento: o da sua alma.


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publicado por petitrien às 12:30
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1 comentário:
De Mamã Gansa a 19 de Fevereiro de 2008 às 12:54
suave , directo , fácil de ler, com cheiro a mar.Gostei bastante.


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